segunda-feira, 9 de maio de 2011

O cérebro do intestino

Os neurônios do intestino ou neurônios entéricos são os principais responsáveis pela manutenção e coordenação das funções digestivas, esclareça-se que funcionam em integração e de maneira harmoniosa com os comandos recebidos do sistema nervoso central.

Para dar idéia da complexidade e do nível de desenvolvimento dos neurônios que constituem o sistema nervoso entérico, à medida que o sistema nervoso foi se desenvolvendo surgiram três tipos básicos de neurônios, os sensitivos que captam os estímulos do meio e os conduzem em direção a centros nervosos onde as informações serão processadas, os associativos que conduzem estas informações para que sejam processadas em diferentes níveis, e os motores que respondem à estimulação. Pois bem, no intestino há semelhança do que acontece no cérebro são encontrados os 3 tipos básicos de neurônios, o que permite a realização de arcos reflexos (passagem de estímulos pelos neurônios sensitivos, associativos e motores) evidenciando uma certa independência de funcionamento. Em termos práticos poderíamos dizer que os neurônios do intestino são até certo ponto capazes de captar informações, processá-las e responder adequadamente conforme a necessidade do momento, é como se "pensassem e tomassem decisões sobre o que fazer" para garantir o bom desempenho das funções de digestão e eliminação das fezes.

Mas por que o intestino precisa de um sistema neuronal tão complexo? . A resposta é simples: basta atentarmos para o fato de que para nos mantermos vivos consumimos energia o tempo todo e que esta energia vem dos alimentos. Ora se o intestino não tiver uma boa coordenação de suas funções e deixar de absorver os alimentos, faltará energia para todo o corpo comprometendo a capacidade de realizar atividades físicas e mentais. Se o alimento percorre o tubo digestivo muito lentamente, pode fermentar e surgir quadros como azia, má digestão e ressecamento das fezes; se percorre muito rapidamente vem a diarréia que tem como principais conseqüências a desidratação e má absorção dos nutrientes dos alimentos. Logo o alimento deve percorrer o tubo digestivo dentro de uma velocidade ideal, para isto conta com a ação dos neurônios entéricos que atuam em conjunto com hormônios controladores do mecanismo da digestão e com informações do sistema nervoso central.

Os principais enfoques dos estudos têm sido o envelhecimento, o diabetes, a desnutrição e alguns estudos de filogênese.

Desnutrição e neurônios entéricos:

São realizados estudos dos efeitos da desnutrição no período de gestação e lactação em ratos, para tanto desnutre-se as mães e estuda-se os efeitos sobre os filhotes. Surpreendentemente nas pesquisas realizadas pelas Profas. Maria Raquel Marçal Natali e Eneri V.S.L. Melo sob orientação do Prof.Dr. Marcílio Hubner de Miranda Neto (UEM) e Prof. Dr. Romeu Rodrigues de Souza (USP), verificou-se que os animais cujas mães são desnutridas na gestação e lactação crescem menos e ganham menos peso, entretanto quando voltam a receber dieta com teor protéico normal os filhotes recuperam-se, e o mais interessante as análises microscópicas demonstram que o animal acumula proteínas dentro dos neurônios entéricos como se fizesse uma reserva para uma possível repetição da desnutrição protéica.

Já nos estudos realizados pela Profª. Débora de Mello Gonçales Sant’Ana, onde o rato adulto envelheceu submetido a desnutrição protéica, verificou-se que estes animais perdem mais neurônios que os animais que envelheceram em condições normais de nutrição. O envelhecimento conforme demonstrado pelo Prof. Dr. Romeu Rodrigues de Souza (USP), provoca em humanos redução de 30 a 40 % do número de neurônios, o que pode ser uma das causas de os idosos terem com certa freqüência complicações digestivas.

Os resultados obtidos usando ratos como modelo experimental na UEM, se extrapolado para humanos, sugerem que uma alimentação pobre em proteínas no decorrer da vida pode resultar em acentuação das complicações digestivas relacionadas ao envelhecimento. Portanto o ideal é uma dieta equilibrada, porém uma dieta equilibrada depende de fatores culturais e sociais.

Diabetes e neurônios entéricos:

O grupo vem desenvolvendo várias pesquisas em colaboração com o Prof. Dr. Roberto Barbosa Bazotte do Departamento de Farmácia e Farmacologia, utilizando como modelo ratos com diabetes induzido por estreptozotocina. Tais pesquisas são motivadas pelo fato do diabetes ser uma doença degenerativa que pode afetar os neurônios entéricos diretamente devido a sua fisiopatologia ou indiretamente devido a aceleração do processo de envelhecimento.

Dados da literatura demonstram que as complicações intestinais são comuns em humanos diabéticos justificando- se o estudo dos neurônios entéricos em modelos experimentais que possam contribuir para compreensão de tais complicações.

Pesquisas realizadas pelas Profas. Luzmarina Hernandes, Jaqueline Nelises Zanoni, Evanilde Buzo Romano, Nilza Cristina Buttow e Cristina Teles Fregonesi, demonstram que o diabetes afeta de maneira diferenciada os intestinos delgado e grosso, sendo inicialmente o intestino delgado o que mais sofre, entretanto com o envelhecimento em condições de diabetes torna-se marcante em ambos uma grande perda neuronal.